Colunas > Diretores > Paolo Sorrentino: O Divo do cinema Italiano atual – Parte 2
Enviado 24/10/2015 1:00 pm por Pipoca Gigante no responses

Paolo Sorrentino e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014 por "A Grande Beleza"

Leia também a primeira parte do especial “Paolo Sorrentino: O Divo do cinema italiano atual.

Em 2011, Paolo Sorrentino dedicou-se a um novo filme, desta vez em inglês, “Aqui é o Meu Lugar“, um road movie. Cheyenne (Sean Penn) é um astro da música com 50 anos de idade que está afastado dos palcos há mais de duas décadas. Deprimido e refém de sua própria fama, ele vive de renda, deprimido e angustiado. Quando recebe a notícia que seu pai, que não vê há 30 anos, está muito doente, resolve visitá-lo em Nova Iorque, mas chega tarde demais. Decidido a encontrar o algoz do seu pai nos tempos da guerra, no campo de concentração de Auschwitz, ele roda pelo país numa viagem de descoberta da América.

Com um roteiro original e ótimos diálogos, é com o som dos Talking Heads que o filme começa. Cheyenne é uma figura bizarra, mas divertido, se veste com roupas góticas e tem um andar estranho. À medida que o filme se desenvolve, percebe-se que Cheyenne é um homem que parou no tempo, na infância. É uma criança congelada. Durante a viagem pela América, crescemos juntamente com Cheyenne. O sujeito deixa de ser uma criança deprimida, que vive preso no passado da sua carreira, para transformar-se num adulto responsável e feliz.

Leia também a crítica de “Aqui é o Meu Lugar”.

Mas o filme não é apenas uma comédia, passa uma série de mensagens sobre a vida, sobre relações familiares, música, estereótipos e história, fazendo sempre referências culturais. A película concorreu em Cannes, onde passou em branco. Mas o filme, escrito por Umberto Contarello, ganhou o David di Donatello de melhor roteiro.

O mesmo roteirista, Contarello, escreve “A Grande Beleza“. Lançado nos cinemas em 2013, teve uma bilheteria estupenda de seis milhões de euros. A história se passa em Roma, onde, durante o verão, o escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade e, desde o grande sucesso do romance “O Aparelho Humano”, escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e os privilégios de sua fama. Agora travestido de colunista social, quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida e talvez voltar a escrever. Tendo como eixo narrativo as peripécias de Jep Gambardela, o que possibilita o exercício de uma forte crítica ética e moral dos costumes atuais, o filme se desdobra, abordando o que seria seu tema – a relação entre vida e arte. O personagem lembra muito o Marcelo Mastroianni de “A Doce Vida“, de Fellini.

Toni Servillo dá vida ao bon vivant Jep Gambardella em "A Grande Beleza"

Todos os elementos extravagantes dos filmes de Federico FelliniA Doce Vida“ (1960), ”Satyricon” (1969) e “Roma” (1972) estão lá: as festas da alta sociedade, os personagens excêntricos, a crise existencial que permeia cada um, as reflexões filosóficas que movem o protagonista e o absurdo quase surreal da vida burguesa que o cerca. São sequências pontuais que marcam intensamente o filme, como o escritório da editora anã, o “show” de uma pequena gênia da pintura e, principalmente, todo o bloco focado na centenária freira santa, personagem calcado em madre Teresa de Calcutá.

Leia também o combo crítico de “A Grande Beleza”.

Abusando do sátira e do humor ácido, Sorrentino fala sobre religião, política, literatura, arte e, principalmente, sobre os interesses do mercado por trás disso tudo. O que ele propõe é uma crítica à sociedade atual, ao culto aos estereótipos e às disputas de egos entre os poderosos economicamente, que imaginam ter hegemonia sobre a intelectualidade, que pensam que ditam o que é certo.

Nos episódios em que Gambardella assiste à performances de artistas “modernos” e os entrevista, o que se vê é uma sucessão de embates entre a ironia inteligente do escritor e o vazio de simulacros de arte. Entre uma atriz nua que bate a cabeça violentamente num muro e a menina de dez anos que “pinta” quadros com jorros de tinta, Sorrentino investe com fúria debochada contra o beco sem saída de uma significativa parcela da arte contemporânea.

Tal questão já se anuncia no início, com a epígrafe de Céline retirada de “Viagem ao fim da noite”: “Viajar é muito útil e estimula a imaginação. Tudo o mais é desilusão e dor. Nossa própria viagem é inteiramente imaginária. Essa é sua força. Ela vai da vida à morte”.

Para Sorrentino, a arte está distante da vulgaridade da mídia e da corrupção do mercado, que a reduzem a meros itens de consumo de luxo para os muito ricos. Valoriza uma arte recôndita mas acessível a quem quer encontrá-la, como mostra o “homem confiável”, personagem que detém as chaves dos maiores tesouros de Roma.

Sorrentino retoma no filme o pensamento de Ingmar Bergman sobre a obra de arte, de que esta perdeu sua grande beleza, seu impulso criador básico, no momento em que se separou do culto. Ela cortou um cordão umbilical e leva agora uma vida estéril, gerando-se e degenerando-se. A capacidade de criar era um dom. Jep compreende e aceita que não exista “a grande beleza”, só rastros dela no meio do imenso blá-blá-blá da vida. Cabe ao artista reconhecer e recolher esses rastros no meio da vulgaridade e banalidade, e com eles construir sua obra.

"A Grande Beleza" marca a quinta participação de Toni Servillo em seis filmes dirigidos por Paolo Sorrentino

No elenco do filme estão Toni Servillo, Sabrina FerilliCarlo VerdoneIsabella Ferrari e Giorgio Pasotti. O filme venceu inúmeros prêmios: melhor filme, melhor edição, melhor ator e melhor diretor no European Film Awards. Abocanhou também nove David di Donatello, cinco Nastri D’Argento e quatro Oscar EPT (europeus), além do BAFTA, do Globo de Ouro e, acima de tudo, do Oscar de melhor filme estrangeiro.

Martin Scorsese disse sobre “A Grande Beleza“: “O estilo e os gestos do cinema têm suas raízes na obra de Fellini e de outros grandes visionários do cinema italiano, e (o filme) parece ter capturado a imaginação não só da América. Porque “A Grande Beleza” é uma bela vista. E mesmo que dure mais de duas horas, você não sente o tempo passar. ”

O projeto “Cities of Love” decidiu homenagear a Cidade Maravilhosa com o filme ”Rio, Eu Te Amo” (2014). O projeto é idealizado e criado pelo produtor, roteirista e diretor francês Emmanuel Benbihy e surgiu como uma ideia de homenagear as grandes metrópoles do mundo, vide “Nova York, Eu Te Amo” (2009) e Paris, Eu Te Amo” (2006).

Basil Hoffman e Emily Mortimer no segmento "La Fortuna"

Rio, Eu Te Amo” reúne nove curtas, dirigidos por dez diretores. Com uma história que interliga todos os segmentos, os filmes abordam o amor, a vida e as descobertas na dita cidade maravilhosa. Paolo Sorrentino é um deles. Dirige o capítulo “La Fortuna”. Emily Mortimer e Basil Hoffman protagonizam como um casal milionário que vai à praia de Grumari para “aproveitar a vida”.

Leia também a crítica de “Rio, Eu Te Amo.”

O novo filme de Paolo Sorrentino, “Juventude” (Youth) (2015), o segundo em inglês, trata de Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos de idade que estão passando as férias em um luxuoso hotel. Além dos dois, o elenco conta com Jane FondaRachel Weisz e Paul Dano. O filme é ambientado no antigo sanatório para tuberculosos de Davos (Suíça), onde o escritor alemão Thomas Mann escreveu sua obra-prima, “A Montanha Mágica“.

O filme fala das ruínas que são a velhice, quando restam apenas as lembranças, as dúvidas sobre a forma na qual se vive a existência, a forçada convivência com o deterioração do corpo e do cérebro, e o retorno dos fantasmas do passado.

É protagonizado por dois idosos que foram amigos íntimos desde sua juventude. Os dois são artistas consagrados e um deles, um lendário diretor de cinema, mantém o entusiasmo para tentar rodar um filme que seria um testamento à altura de sua obra. O outro, compositor e diretor de orquestra cujas criações foram veneradas, sente apenas apatia em relação à sua arte e se nega obstinadamente a voltar aos palcos para dirigir uma de suas mais antigas e famosas óperas, que será apresentada para a rainha da Inglaterra. Juntos vão repassar suas vidas, suas obsessões, seus amores, os segredos que foram guardados, suas culpas, os momentos de plenitude, os anseios que foram frustrados e o medo em relação ao iminente nada.

Michael Caine e Harvey Keitel dão vida à cumplicidade entre esses dois homens angustiados, conseguindo transformá-los em personagens complexos, magnéticos e críveis. Para Sorrentino, o filme é uma excelente oportunidade para exorcizar o medo da passagem do tempo, do envelhecimento, da morte física e mental.

Sorrentino possui estilo visual singular, sua linguagem e narrativa fascinam o espectador, e suas imagens se imprimem na memória de quem assiste. Com seu modo particular de filmar, com movimentos de câmara que por vezes parecem estranhos, mas que se adequam perfeitamente à narrativa, o cineasta une música e imagens como se estivesse em um balé visual em um mundo apaixonante, criando uma visão pessoal do cinema.

Michael Caine e Harvey Keitel em "Juventude"

Seus personagens são excêntricos, extravagantes, desiludidos, sempre se colocando em situações limite. Se afastam do habitual, do que é comum, e cometem exageros. Têm um estilo próprio de vida, no modo de vestir, de pensar e no comportamento. Sempre buscam algo que perderam: o amor, a infância, o desejo, o sonho. Seus personagens cativam pela excentricidade de cada um. Lembram personagens de Fellini.

Não resta dúvida que Sorrentino tem méritos por ter encontrado um caminho próprio de qualidade até o momento. Bebendo nas fontes de Scorcese, de Antonioni e de Fellini, o diretor tenta suprir a ausência dos dois últimos no cinema italiano e mundial. Por isso é tão prestigiado pela crítica que fez dele O Divo do cinema italiano dos 15 primeiros anos do século 21.

Paolo Sorrentino no set de "A Grande Beleza"

 
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